Flâneur

“The flâneur is a precursor of a particular form of inquiry that seeks to read the history of culture from its public spaces.”

Anke Gleber, The Art of Taking a Walk

Flâneur e o conceito de flanerie vem do francês e embora descreva um “preguiçoso” vindo do verbo flâner, “passear”, é considerado desde o seu aparecimento nas ruas de Paris no século XIX como um estudioso da vida moderna. Um observador da sociedade, capaz de se inserir no meio de uma multidão e, no entanto, ser sensível e consciente dos mais pequenos detalhes que a caracterizam, sem que a rotina e o hábito lhe toldem a visão. Encontra-se, assim, quase sempre numa posição de auto-excluído.

“The crowd is his element, as the air is that of birds and water of fishes. His passion and his profession are to become one flesh with the crowd. For the perfect flâneur, for the passionate spectator, it is an immense joy to set in the midst of the fugitive and the infinite. To be away from home and yet feel oneself everywhere at home; to see the world, and to be at the centre of the world, and yet to remain hidden from the world—such are few of the slightest pleasures of those independent, passionate, impartial natures which the tongue can clumsily define”

Charles Baudelaire

Charles Baudelaire, poeta e crítico de arte francês (1821-1867), fortalece o conceito de flâneur aplicando-o ao artista. Na obras Les Fleurs du Mal e The Painter of Modern Life, defende que mergulhando no quotidiano, no presente e na complexidade de uma multidão será a melhor forma de representar a era moderna e as suas qualidades. Esta teoria, embora escrita há mais de um século, é ainda considerada influente e relevante para artistas contemporâneos, sendo notória a sua presença na fotografia e em filmes.

“ The photographer is an armed version of the solitary walker reconnoitering, stalking, cruising the urban inferno, the voyeuristic stroller who discovers the city as a landscape of voluptuous extremes. Adept of the joys of watching, connoisseur of empathy, the flâneur finds the world “picturesque.” ”

Susan Sontag, On Photography

Walter Benjamin, escritor e filósofo alemão (1892-1940), debruçou-se sobre o impacto psicológico da vida moderna na cidade no indivíduo, através do conceito de flâneur. Segundo Walter Benjamin, um flâneur procura experienciar e não obter conhecimento sólido, contempla aquilo que o rodeia, sem ter respostas, nem certezas, apenas tendo dúvidas e perguntas. Um flâneur é, por isso considerado por Benjamin, um eficiente observador e analista da vida contemporânea tão efémera e fácil de passar despercebida.  

Na literatura o conceito de flâneur é recorrentemente usado, explorado e estudado.

Baudelaire e Walter Benjamin ocupam um lugar principal e estrutural, mas muitos outros tem nas suas obras reflexos desse estado de consciência, como por exemplo o escritor português Fernando Pessoa (1888-1935),os seus heterónimos, nomeadamente Ricardo Reis, e Cesário Verde, também escritor português (1855 – 1886) e Edgar Alan Poe, escritor e crítico literário norte-americano (1809-1849).

“Eu não sou como muitos que estão no meio de um grande ajuntamento de gente e completamente isolados e abstratos. A mim o que me rodeia é o que me preocupa”.

Cesário Verde

No conto The Man of the Crowd de Edgar Alan Poe o narrador contempla atentamente o que rodeia, sobretudo os circundantes, desinteressando-se quando consegue relacionar a pessoa que observa a algum estereótipo.

Um velho decrépito consegue finalmente prender a sua atenção por permanecer uma incógnita, levando o narrador a segui-lo. O velho deambula por ruas cheias de gente, procurando confundir-se na multidão, embora não demonstre qualquer tentativa de interagir ou fazer parte desta. Aparenta deambular sem qualquer propósito aparente, mas mostra-se sempre desolado com a ausência de pessoas, procurando rapidamente “refúgio” noutro qualquer sítio populoso. Desta forma, Edgar Alan Poe, descreve um flâneur, personificando-o no velho decrépito.

“He noticed me not, but resumed his solemn walk, while I, ceasing to follow, remained absorbed in contemplation. “The old man,” I said at length, “is the type and the genius of deep crime. He refuses to be alone. He is the man of the crowd.”

Edgar Alan Poe, The Man of the Crowd

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Taxi Driver (1976)

Em Taxi Driver (1976) dirigido por Martin Scorsese  para além da construção narrativa através do olhar atento de Travis (Robert De Niro), os planos e as cenas são neste filme trabalhados de modo a transmitir mais fielmente a realidade vivida na cidade, realçando pormenores que muitas vezes passam despercebidos, sendo desta forma construída neste filme uma verdadeira perspectiva flâneur.

“The Times They are a Changin” ,Bob Dylan:

https://www.youtube.com/watch?v=e7qQ6_RV4VQ

Bob Dylan, músico, escritor e compositor norte-americano (1941), principalmente nas suas criações da década de sessenta consegue incorporar um sentido de consciência por aquilo que o rodeia, contexto social e político, evocando as problemáticas da sua contemporaneidade que faz dele um flâneur tipicamente descrito por Baudelaire e Benjamin. Talvez o prémio Nobel da Literatura que recentemente lhe foi atribuído seja também um reconhecimento da sua consciência flâneur, sempre interessado por todos e desinteressado de si, sem procurar reconhecimento, nem ascensão, nem ser outra pessoa que não ele mesmo. 

Webgrafia:
http://pinkmonkey.com/dl/library1/crow.pdf
http://psychogeographicreview.com/baudelaire-benjamin-and-the-birth-of-the-flaneur/
http://passapalavra.info/2009/05/3292
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